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Artigo do Rafa: lições da greve dos caminhoneiros

Confira abaixo o artigo de Rafa publicado no jornal Correio Popular em 26 de junho de 2018. Pra quem preferir ler em word, basta rolar a tela para logo abaixo da reprodução do jornal.

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O CAMINHO A SEGUIR

 

Lições da greve dos caminhoneiros

Rafa Zimbaldi*

Em apenas dez dias de paralisação, a greve dos caminhoneiros conseguiu parar e desabastecer o país, deixando os brasileiros atônitos. Não vou aqui questionar as razões do movimento e, sim, as conseqüências e o cenário exposto por ela. O prejuízo gerado é difícil de ser medido, sobretudo diante de 27,7 milhões entre desempregados e ocupados parcialmente e da redução do crescimento do PIB atribuída à contração de atividades econômicas. Mas, apenas em Campinas, segundo a Associação Comercial e Industrial, o prejuízo à economia foi de mais de R$ 1,1 bilhão. E, por mais que seja pujante, Campinas é uma única cidade:  imagine então o prejuízo em todo um país.

Rodovias foram bloqueadas com a queima de pneus e emissão de gases tóxicos. Alunos de diversos níveis ficaram sem aulas. Em algumas localidades brasileiras, foram necessárias ações de emergência para salvaguardar vidas: para ultrapassar o bloqueio, um avião da Força Aérea transportou 16 toneladas de medicamentos de São Paulo a Recife, necessários para procedimentos de hemodiálise. No interior do Mato Grosso, um helicóptero do exército transportou materiais hospitalares. Milhões de aves e bovinos morreram por falta de alimentos e houve desperdício de milhões de quilos de carne e litros de leite por falta de transporte.

A falta de produtos atingiu supermercados e feiras – somente na Ceasa de Campinas o prejuízo foi estimado em R$ 30 milhões e foram necessários cinco dias para regularizar o abastecimento. Preços dispararam e o combustível sumiu. Na RMC, 15 municípios decretaram estado de emergência para garantirem serviços essenciais à população como tratamento de água, materiais para hospitais, combustível para bombeiros, ambulâncias, policiamento em geral, transporte público.

O acordo feito pelo governo federal –com diversos pontos positivos que foram antecipados pelo governo de São Paulo, é bom ressaltar  – ainda não está consolidado na prática em diversos estados e os descontos e cessões feitas à categoria terão custo de bilhões de reais, que serão pagos sabe-se lá como. A Câmara dos Deputados Federais aprovou a isenção do PIS/Cofins sobre o diesel até o final de 2018, também aprovada pelo Senado Federal. O Conselho Administrativo de Defesa Econômica (CADE) apresentou nove soluções para reestruturar o setor de distribuição de combustíveis, dentre elas a autorização para que produtores de álcool vendam diretamente aos postos, permissão para distribuidoras importarem e revisão da tributação dos combustíveis.

Embora importantes, tais medidas devem estimular o debate estrutural do problema: a dependência das rodovias para transportar mercadorias e pessoas em um país continental.  Tornou-se óbvio, se é que já não era, que um país das dimensões do Brasil não pode depender de um único “modal”, termo que se tornou moda. Nosso país começou a apostar em rodovias no governo do presidente JK, com o Plano de Metas (1956-1961), e a priorização de investimentos para abertura e asfaltamento de estradas em detrimento das ferrovias, cuja malha era composta por 36 mil quilômetros.

Não foi levada em conta a experiência dos países desenvolvidos que constituíram um sistema multimodal de transporte, a partir da constatação de que nenhum modal, isoladamente, atende plenamente as necessidades de transporte de passageiros e de mercadorias. Infelizmente, a prioridade foi mantida de maneira impensada pelos governos federais seguintes e repetida entre os estados e municípios.

As ferrovias tornaram-se obsoletas por falta de investimentos, concedidas para o setor privado e dedicadas principalmente para mercadorias como grãos e líquidos. O transporte público tornou-se quase exclusivamente feito por ônibus e os carros particulares se proliferaram enormemente entre os que tinham condições para evitá-lo  (o metrô, alternativa eficiente neste campo, é raro no Brasil).

Mas a dependência das rodovias pode ser revista nas eleições que se aproximam. No Estado de São Paulo, pode-se repensá-la a partir de uma Agenda Regional Positiva. Primeiro, devido ao Aeroporto Internacional de Viracopos ampliado pela Aeroportos Brasil Viracopos. Para o transporte de mercadorias aéreas importadas, Viracopos gera cerca de 14 US$ bilhões e é o primeiro do país desde 1998. Para o transporte de passageiros, passou da média de 600 mil/ano, dos anos 90, para quase 10 milhões. Além de induzirem o desenvolvimento, os grandes aeroportos geram demandas que estimulam investimentos para os modais rodoviário e ferroviário.

Segundo, devido ao Trem Intercidades (TIC), previsto inicialmente entre São Paulo-Americana para 60 mil passageiros. A licitação está prevista para agosto de 2018, a partir de estudo sobre compartilhamento entre o transporte de mercadorias (federal) e de passageiros (estadual) realizado pelo consórcio (Pró TL). O TIC envolve também conexões com a macrometrópole paulista formada pelas regiões metropolitanas de São Paulo, Santos, Sorocaba, São José dos Campos e com São Sebastião onde estão 3/4 da população paulista e 80% do PIB estadual.

Há que se olhar ainda com carinho (e investimentos) não só para que seja retomada uma rede ferroviária como também para a criação de hidrovias, uma vez que nosso estado e nosso país é permeado por rios navegáveis. Como se vê, soluções existem. O que é  preciso é vontade política e, consciente deste fato, cabe a nós exigi-la.

* Rafa Zimbaldi é vereador e presidente da Câmara Municipal de Campinas

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